sexta-feira, 5 de março de 2010

Botafogo: Um Clube de Atletas Médicos

por Claudio Falcão

Em minha pesquisa encontrei nove jogadores de futebol que envergaram a camisa gloriosa do Botafogo os quais, após encerrarem suas respectivas carreiras esportivas, dedicaram-se à profissão médica.

Somente um conheci pessoalmente, o dr. Carvalho Leite e também somente um assisti atuando como jogador, Afonsinho, craque que viveu com o clube da estrela solitária situações opostas de afinidade e de grande conflito, como está descrito mais adiante. A seguir, um pouco da trajetória dos nove personagens.

Rolando

Rolando de Lamare nasceu em Belém (PA) a 10 de novembro de 1888. Médio-direito, foi campeão carioca pelo então Botafogo F.C. em 1907, 1910 (aqui, na companhia de seu irmão Abelardo) e 1912 (AFRJ) e defendeu a seleção brasileira no ano de 1914. Foi-lhe outorgado pela assembleia geral de 6 de julho de 1917, ainda do Botafogo F.C., o título de benemérito. Diplomado em 1912, tendo se especializado em Urologia. Falecido no Rio de Janeiro a 20 de julho de 1963.

Lauro

Lauro de Almeida Sodré Filho nasceu a 3 de outubro de 1890. Atacante, competiu pelo Botafogo nos campeonatos cariocas de primeiros quadros de 1910 a 1915, sagrando-se campeão em 1910 e 1912 (AFRJ). No glorioso título de 1910, formou no ataque com seus irmãos Emmanuel e Benjamin (Mimi) de Almeida Sodré. Especializou-se em Otorrinolaringologia.

Moura Costa

Henrique de Moura Costa defendeu o Botafogo nos anos de 1919 a 1921, competindo basicamente nos campeonatos cariocas de segundos quadros daqueles anos, tendo em 1921 atuado em todos os 12 jogos do certame, na maioria das vezes como médio-direito. Era tio de Leandro Moura Costa, nosso atacante tricampeão carioca em 1932-1933-1934. Falecido no Rio de Janeiro a 17 de março de 1958.

Palamone


Luiz Bento Palamone nasceu em Araraquara (SP) a 21 de março de 1898. Zagueiro, iniciou sua carreira no Americano F.C. de Araraquara em 1916, transferindo-se a seguir para o Mackenzie (SP), a quem esteve vinculado até 1919. Mudou-se então para o Rio de Janeiro para estudar Medicina, filiando-se ao Botafogo, onde estreou a 20 de julho de 1919, tendo defendido as cores alvinegras até 1924. Campeão sul-americano pela seleção brasileira, como titular, em 1922. A 11 de janeiro de 1923 foi-lhe concedido o título de sócio benemérito do então Botafogo F.C. Foi diretor da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara (1949). É nome de estádio naquela cidade paulista: Estádio Municipal Dr. Luiz Bento Palamone.

Carvalho Leite


Carlos Antônio Dobbert de Carvalho Leite nasceu em Petrópolis (RJ) a 26 de maio de 1912, tendo falecido a 19 de julho de 2004, ou seja, pouco depois de completar 92 anos. Foi centro-avante do então Botafogo Football Club, para onde se transferiu em 1929, oriundo do Petropolitano F.C. Apelidado de “Maravilha da Serra”. Pelo Botafogo foi campeão carioca em 1930, 1932-1933-1934-1935 (tetra), sendo artilheiro máximo da competição nos anos de 1936 (FMD), 1938 e 1939. Em sessão do conselho deliberativo do clube, a 4 de fevereiro de 1931, foi-lhe concedido, bem como aos demais campeões cariocas de 1930, o título de emérito. Pelo alvinegro carioca assinalou 261 gols em 303 partidas (média de 0,86). Abandonou a carreira em maio de 1941, por motivo de contusão, oito dias antes de completar 29 anos de idade. Participou de duas copas do mundo (1930 e 1934) e de um campeonato sul-americano (1937) pela seleção brasileira. Durante muitos anos foi médico do clube, tendo sido o ‘doutor’ na conquista do campeonato carioca de 1957, assim como médico do antigo INAMPS. Conheci-o, já idoso, na sede do Mourisco Mar, nos anos 90 do século passado, quando o ex-jogador era um dos médicos responsáveis pelo exame que habilitava os associados a frequentarem as piscinas do clube.

Nariz


Álvaro Lopes Cançado, o Nariz, nasceu em Uberaba (MG) a 8 de dezembro de 1912, tendo se suicidado na mesma cidade a 19 de setembro de 1984, com 71 anos de idade. Zagueiro, transferiu-se do C. Atlético Mineiro em 1933 para o Fluminense F.C. e daí para o Botafogo em 1934, onde atuou até 1941. Foi campeão carioca pelo ‘Glorioso’ em 1935. Competiu pela seleção brasileira no sul-americano de 1937 e na copa do mundo de 1938. Concluiu seu curso médico em 1936. Especializou-se em Ortopedia, tendo criado em 1940, no Botafogo, o primeiro departamento médico de um clube no Brasil. Em sua cidade natal foi um dos fundadores, em 1954, da faculdade de Medicina, onde foi professor. Deixou dois filhos, Vânia e Álvaro Júnior, este também já falecido, ambos médicos.

Renê


Renê Mendonça nasceu em São João Nepomuceno (MG) a 1 de janeiro de 1921. Atacante, tricampeão carioca de primeiros quadros amadores pelo Botafogo (1942-1943-1944), já em 1945 figurava entre os jogadores profissionais do clube, na disputa do campeonato carioca. Diplomou-se em Medicina pela antiga Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, na turma de 1947. Foi médico do futebol do clube alvinegro e, como exemplo, era ele quem zelava pela saúde dos atletas botafoguenses campeões invictos de aspirantes em 1958 e compunha, juntamente com o conceituado dr. Lídio Toledo e com o ex-jogador Carvalho Leite, em 1963, o departamento médico do clube. Já falecido.

Tovar


Luiz Paulo Neves Tovar, habilidoso atacante, nasceu em Vitória (ES) a 19 de setembro de 1923 e, tal como Renê, foi tricampeão carioca de primeiros quadros amadores (1942-1943-1944). Por diversas vezes integrou a equipe de jogadores profissionais do Botafogo, porém sempre como atleta amador, já que nunca aceitou remuneração para defender o clube de sua paixão. Compôs, juntamente com o grande Heleno de Freitas, o grupo de atletas da seleção brasileira na disputa do campeonato sul-americano extra de 1945, em Santiago do Chile. Ainda em 1945, por proposta do então presidente Adhemar Bebiano, foi-lhe concedido pelo conselho deliberativo do Botafogo o título de benemérito. Sua formatura em Medicina deu-se em 1946. Especializado em Traumatologia e Ortopedia, foi membro da Sociedade Brasileira da especialidade (SBOT-RJ). Conceituado ortopedista, atuou nos hospitais Geral de Bonsucesso e dos Servidores do Estado (onde ingressou após ser aprovado em primeiro lugar no concurso de 1955), bem como no extinto Hospital da Cruz Vermelha Brasileira. Paulinho Tovar, como era mais conhecido, residia no Rio de Janeiro (informação colhida coincidentemente no dia de seu aniversário de 85 anos, 19 de setembro de 2008), vindo a falecer a 28 de novembro do mesmo ano.

Afonsinho


Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, é paulista da capital, onde nasceu a 3 de setembro de 1947, tendo chegado ao Botafogo em 1965, oriundo do XV de Novembro de Jaú (SP). Clássico jogador de meio-campo, compôs o setor, no ‘Glorioso’, ora com Gérson, o ‘Canhotinha de Ouro’, ora com Nei Conceição, ambos atletas de rara habilidade. Teve uma carreira vitoriosa no alvinegro, conquistando os títulos de campeão carioca de aspirantes (1965), de juvenis, atuais juniores (1966), tendo participado das campanhas dos bicampeonatos da Taça Guanabara e carioca de profissionais (1967-1968) e erguido, como capitão da equipe, o troféu de campeão da extinta Taça Brasil (1968), decidida no ano seguinte. Tido como rebelde, por gostar de usar cabelos compridos e barba, entrou em litígio com seu técnico à época, Zagallo, e com a diretoria do clube, tendo conquistado na Justiça Desportiva o passe livre, quando, em 1971, transferiu-se para o Olaria A.C., que montava naquele ano um time que classificou-se em terceiro lugar no campeonato carioca. Defendeu ainda vários outros clubes, como o C.R. Vasco da Gama, o Santos F.C., o C.R. Flamengo e o Fluminense F.C. Biografado por Kleber Mazziero de Souza, na obra ‘Prezado Amigo Afonsinho’ (Método Editora – 1998), por sinal a expressão do primeiro verso da música ‘Meio de Campo’, para ele composta por Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura (governo Lula). Diplomou-se em Medicina pela antiga Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, hoje Escola de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), tendo se especializado em Fisiatria.


[Publicado originalmente no blog Mundo Botafogo a 18 de outubro de 2008 e agora, no DataFogo, com acréscimos.]

4 comentários:

  1. Conheci este maestro da pelota nos anos 60 em um jogo em Barra Mansa que fomos vencidos por 1 a 0 gol de Jairzinho,mas ele era o cara no dominio da bola foi 10,tinha mais ou 17 anos na época,muito bom de bola.

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  2. Bem, amigo, claro que só pode ser do Afonsinho que você está falando...
    Concordo com sua opinião, pois ele era um meio-campo de muita habilidade.
    E até hoje, ao conceder entrevistas, reafirma o seu 'botafoguismo'.

    Saudações Alvinegras!

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  3. Não sou botafoguense, já vi atuações magníficas de Zizinho, Heleno de Freitas, Pelé, Garrincha e Newton Santos, mas a maior exibição individual de um jogador de futebol que vi nasceu dos pés de Paulo Tovar, num jogo em que o Botafogo ganhou do Canto do Rio por 4 x 2, em 1945, no Estádio Caio Martins em Niterói.

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  4. Olá, Waldeleu.
    A partida a que você se refere, Botafogo 4 x 2 Canto do Rio, foi disputada a 15/07/1945.
    Assim formou o Botafogo: Ary, Gérson e Sarno; Ivan, Spinelli e Negrinhão; Renê, Tovar, Heleno, Tim e Franquito.
    Marcaram para o Botafogo: Renê, Tim, Heleno e Franquito.
    Fonte: 'O Futebol no Botafogo (1904-1950)', de Alceu Mendes de Oliveira Castro.

    Saudações esportivas!

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